REFLEXSONS


Lágrimas da manhã



Uma estranha vontade de chorar me invadiu hoje cedo, como se fosse um nevoeiro de tristeza que vem chegando e estaciona ao meu redor. Estava no centro da cidade, procurei uma cafeteria, entrei e escolhi a única mesa vazia, com um lado colado na parede. Sentei virado para a rua e pedi um expresso grande. O nevoeiro foi comigo e sentou-se ali também, sem pedir nada, apenas me acompanhando com sua tristeza e embaçando minha vista. Enquanto esperava o café olhei pra rua e respirei fundo tentando desatar o nó do choro, que apertava a garganta. Aos poucos, fui percebendo o ambiente ao redor. Várias mesas, cada uma com uma pessoa apenas. Uma moça com uma farda de loja, tomando café com coxinha, olhando pra longe, como se visse algo bem distante, mastigava devagar, parece que não sentia o menor gosto da comida. Um rapaz bem jovem, digitava sem parar, no celular, olhar focado na tela, dedos rápidos, mordendo o lábio inferior, as pálpebras abriam e quase fechavam, franzia a testa, mostrava os dentes superiores, balançava levemente a cabeça de vez em quando, como se apressadamente dissesse não. Um copo de refrigerante e um enroladinho de salsicha, intactos, aguardavam sobre a mesa. Uma senhora de cabelos brancos, tentava partir uma tapioca com garfo e faca, balançando a mesa inteira, fazendo derramar café da sua xícara, para ela o mundo ao redor não existia além da sua tapioca.  Um jovem executivo vestido num terno completo, inclusive gravata, num nó perfeito, sobre uma camisa branca recém passada. Ao seu lado, uma bolsa de couro fino com um inevitável notebook. Ele mexia um cappuccino sem parar, há um bom tempo, olhando para alguém na rua. Sorria levemente e fazia um sinal discreto com as sobrancelhas, como se tentasse falar com os olhos. Um pouco mais para o fundo, havia um pequeno grupo de idosos, conversando e rindo, comentando sobre as notícias de um jornal que passava de um para outro, entre risos e lorotas. Eram a alegria da manhã, contrastando com meu nevoeiro triste. Chegou meu expresso grande, com um coração desenhado na espuma do leite. Duas colheres de açúcar e uma mexida, dissolveram o coração espumoso. Um gole rápido e a quentura do expresso se fez presente no meu corpo, marcando na boca o gosto forte do café. Graças aos deuses, é possível existir em algum lugar uma felicidade lembrada pelo café quente. E vi através da minha bruma particular, o mundo após o gosto do primeiro gole de café. É possível que o mundo seja bom? Apesar da névoa? Vi, nas mesas da calçada, três homens, cada um em uma mesa. Em cada mesa uma cerveja com dois copos ao lado. As três cervejas das três mesas estavam pela metade e os três copos das três mesas estavam pela metade, com cerveja. Os outros três copos, vazios. Os três homens olhavam, cada um pra um lado, como se procurassem com os seus olhares, companhias para dividirem suas cervejas. Na frente dos homens sentados, sozinhos com suas cervejas, a cidade desfilava em forma de gente. Velhos bem vestidos, casais apressados de mãos dadas, casais andando devagar, atrapalhando os apressados, crianças descalças e sujas correndo e desviando dos transeuntes, um menino de olhos grandes oferecendo balas pra vender – compra pra me ajudar. Engraxates oferecendo seus serviços, alguém pedindo ajuda pra comprar comida, outra criança pedindo dinheiro, um homem oferecendo pendrive gravado com mais de cento e cinquenta músicas, vários rapazes e moças fazendo panfletagem, um homem sentado no chão pedindo uma esmolinha pra ajudar o ceguinho, um vendedor de água gritando – olha a água, olha a água, geladinha e bem docinha, que não é salgada. E claro, o doidinho da rua, conhecido de todos – vem cá Risadinha, toma o trocado, ô Risadinha vai pra casa, Risadinha e a namorada? – e Risadinha passa pela rua, sorrindo para todos, alegrando todos. O café expresso fica cada vez melhor, dá até para fechar os olhos e sentir aquele gosto bom na língua. Percebi que o nevoeiro foi embora, já não me acompanhava mais. Percebi também que não era nevoeiro, eram apenas lágrimas que brotaram e rolaram pela face. Pronto, acabou o choro e o café.

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