REFLEXSONS


Abuso Sexual - 50 anos depois


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Final dos anos sessenta, cidade pequena, situada no sertão de Pernambuco. A família era, pai, mãe e três filhos pequenos, sendo eu o mais velho dos três, acho que tinha aproximadamente 10 anos de idade, um pouco mais, ou menos, não consigo determinar a idade exata. Nessa época, como era bem comum no interior, chegou na casa da família, uma garota para ajudar a atarefada mãe e dona de casa com os filhos. Essa garota, imagino, devia ter um pouco mais de quinze anos e teria a função de ajudar nos cuidados com crianças, cumprindo os afazeres do que hoje em dia chamaríamos de babá. Numa ocasião em que ficamos apenas ela e eu em casa, ela inventou uma brincadeira que chamou de “brincar de circo”. Me sentou no chão, de frente para ela, colocou um lençol por cima de nós dois, tirou sua calcinha, abriu as suas pernas, me cercando, abaixou minha bermuda, pegou minhas mãos e colocou na sua vagina, me instruindo para que eu ficasse mexendo os meus dedos no órgão sexual dela, enquanto me alisava e pegava no meu pênis. Lembro que ela falava algumas coisas sem nexo para mim e ficava esfregando minhas mãos na sua vagina. Não sei precisar quantas vezes isso aconteceu, mas, não foi só uma. Até que numa das vezes, o casal deve ter chegado em casa de repente, meu pai retirou o lençol de cima da gente e viu a cena. Dessa vez, lembro de gritos de reprovação por parte da minha mãe, que imediatamente afastou a babá de mim e a levou para outro cômodo da casa. Enquanto isso, meu pai ficou comigo, pegou alguma coisa com as mãos, me segurou com força e muita raiva e me bateu. Me deu a maior e a única surra que eu levei na vida. Na minha memória, aquilo durou muito tempo, lembro dos meus gritos e da dor, não lembro das palavras que ele dizia, imagino que deveriam ser coisas muito graves, pela expressão raivosa em seu rosto. Em seguida, ele me levou para um banheiro da casa e fui trancado lá chorando muito, sem ter a menor noção do que estava acontecendo e sem saber a razão de estar apanhando. Lembro do eco do meu choro no banheiro, das dores no corpo pela surra e eu olhando, entre o borrado das lágrimas, para um basculante aberto, que havia numa parede do banheiro e dava para a rua. Apenas me vem na mente - Por que me bateram tanto? A lembrança termina aí.
Passou o tempo.
Ao completar uns trinta e poucos anos, já trabalhando, comecei a fazer psicoterapia com uma psicóloga e durante o processo, percebemos que eu não tinha lembranças de minha infância ou adolescência, notadamente com relação as lembranças onde deveria haver a participação da figura paterna. Eu simplesmente, não conseguia lembrar de qualquer fato da minha vida, que tivesse a participação de meu pai. E lembrava de pouquíssimos acontecimentos de minha vida, dos 30 anos para baixo. Com o passar do tempo e depois de mais de vinte anos em processo de terapia, com vários psicólogos e técnicas psicológica diferentes, ainda não tenho memórias completas sobre minha infância, adolescência e vida adulta. Ainda hoje, só consigo ter lembranças mais fixas de fatos, pessoas e relacionamentos dos últimos dez a quinze anos, ou de pessoas com quem mantenho uma convivência mais frequente. Faço sempre, comigo mesmo, uma espécie de revisão de lembranças, como se fosse uma manutenção de pensamentos para tentar segurar as lembranças na memória. Até hoje, não lembro, por mim mesmo, de fatos interessantes e marcantes da minha vida, apenas sei de lembranças a meu respeito, por conversas que tive com minha mãe, avó e tia, parentes do lado materno. Sei de mim pelo que me contaram e não pelas minhas próprias memórias. Durante todo esse tempo, sempre fui orientado pelos psicólogos a conversar sobre mim com os parente e amigos mais próximos, para tentar recuperar lembranças e despertar a minha mente nesse sentido.
Não lembro do nascimento de meus irmãos, nem das minhas relações com eles, dos meus 40 anos para baixo. Também não lembro de qualquer fato ou sensação agradável de relacionamento com meu pai, dos meus 50 anos para baixo. Não lembro do nascimento de sobrinhos, não lembro de relacionamentos familiares com eles, nem lembro de fatos claros com familiares do lado paterno, apenas sei o que ouvi de conversas e lembranças dos outros que me foram contadas. Mantenho uma memória de esforço com relação a isso, fazendo esses exercícios de procurar relembrar sempre que possível, de fatos, acontecimentos e relacionamentos vividos com essas pessoas. Do segundo casamento de meu pai, lembro apenas que fui à igreja, assistir à cerimônia e só, não lembro quem estava lá nem de mais nada a respeito.
Depois de fazer uma viagem a minha cidade natal (já com mais de 40 anos de idade), consegui recuperar algumas lembranças sozinho, tipo, o colégio onde estudei, a rua da casa que morei, cheiros e sensações da feira da cidade, vagas lembranças de algumas paisagens da mesma cidade. Consegui também, nos últimos dez anos, recuperar boas lembranças de minha relação com minha mãe e minha irmã. Agora, depois de 2010 para cá, já lembro de mais fatos da doença e morte da minha irmã. Voltando, inclusive, em maio de 2017, a sonhar com elas (mãe e irmã) de frente para mim, coisa que não acontecia desde a morte das duas. Antes disso, toda lembrança e sonho com elas, elas estavam sempre de costas para mim.
As únicas referências afetivas e familiares que tenho, são lembranças próprias minhas, que têm a participação de minha mãe e da minha irmã e de alguns parentes do lado materno da família. Lembro sem muita clareza, dos últimos anos de vida de minha mãe, da morte dela e que cuidei de tudo no funeral dela, como: recebi o corpo, escolhi a roupa para enterrá-la, cuidei do velório, etc. Nunca esqueci da primeira noite que ela passou no hospital Santa Joana, 28 dias antes de morrer, quando fiquei com ela a noite inteira, ela delirando e falando coisas bem estranhas. Foi uma noite de tristeza, aprendizado e despedida. Lembro que cumpri a vontade dela, que queria que não houvesse choro quando ela morresse. Ela me deu forças e eu fui o único que atendeu o seu pedido, não derramei uma lágrima sequer durante todo o funeral, depois, soube até que falaram mal por isso, por eu não ter chorado na ocasião, mas isso nunca me incomodou. Eu lembro que recebia as pessoas com um ar de quase sorriso, em homenagem a ela, e, deixei para chorar dias depois, sozinho, em casa.
Ainda continuo em processo psicoterapêutico de manutenção, me considero bem mais centrado, já me aceito completamente e sei lidar melhor com esse bloqueio de memórias que tenho. Faz parte de minha vida já e me faz ser quem e como eu sou. Claro que tive que aprender a conviver com isso a duras penas e reaprendendo a cada dia, a cada fato, a cada relacionamento. Só agora resolvi falar sobre tudo isso, pois só agora me sinto à vontade, e, acho que pode servir de alerta para outras pessoas. Principalmente pelo fato gerador dos bloqueios de memórias e sentimentos, talvez ser devido àquele abuso sexual sofrido na infância e a partir de então gerar consequências para toda a vida. Acho até que essas coisas nos fazem perceber que não estamos imunes a nada, há sempre fatores que não estão no nosso controle, e, por mais que nos sintamos, às vezes, tão donos da verdade, querendo julgar pessoas e fatos diante das situações impostas pela vida, vale lembrar dos pontos imponderáveis, das interpretações dos momentos, dos significados traumatizantes e de tantas coisas aleatórias às quais estamos submetidos. Além dos fatores genéticos que podem aparecer a qualquer momento, podendo não aparecer em nós mesmos, mas, nos filhos da nossa próxima geração, afinal, todos podemos ter parentes próximos com distúrbios de personalidade, com obesidade, com doenças autoimunes (como esclerose múltipla, por exemplo), com características psicóticas, com tendência a desenvolver câncer, etc. Enfim, as possibilidades são infinitas e não estão todas sob nosso controle. Cabe-nos aprender com o viver, aceitar as nossas limitações e torcer pelo melhor para cada um. Tomara que essa experiência vivida por mim, sirva para ajudar alguém. Recentemente, perguntei a meu pai sobre esse fato e ele, agora, perto do noventa anos, alega não lembrar disso. O meu caminho, como o caminho de todos nós, continua, espero que cada lembrança recuperada por mim, seja um novo passo à frente.

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