REFLEXSONS


Tia Lila e o zap zap


Tia Lila descobriu o WhatsApp. Pronto, começou a utilizar timidamente, meio com receio de fazer alguma coisa errada e travar o celular, aquele medinho gostoso de clicar e sumir tudo, mas ao mesmo tempo ir descobrindo mais coisas fantásticas que um aparelhinho daqueles pode fazer.
Tia Lila mora num sítio, nos arredores de uma cidadezinha, no agreste do estado. Trabalha na prefeitura da cidade e nas horas vagas do trabalho, vende produtos de beleza, recipientes de plástico, perfumes, Natura, Avon, Hermes e toda espécie de quinquilharias que cabem naquelas revistinhas de mercadorias que rolam soltas por aí. As revistinhas passam de mão em mão e vão ganhando marcas de “x”, círculos ao redor dos produtos, nomes dos prováveis compradores, dobras em quase todas as páginas. E passadas de uma casa a outra, pelos filhos das potenciais clientes e interessadas.
- Zezim, vai ali levar a revista na casa de Mariquinha, cuidado pra não derrubar na rua e rasgar. Diga a ela que depois dela é pra ela mandar pra Vera de Toinha, antes do dia 15, que é pra pegar a entrega ainda no começo do mês.
Antes do celular, funcionava mais ou menos assim: as revistas iam passando de casa em casa, de rua em rua. Depois chegava Tia Lila na casa de alguma cliente e perguntava por onde andava a revista. Na conversa se fazia o histórico de antes daquela cliente e para quem ela mandou em seguida. Assim se descobria o caminho das revistinhas, até encontrar o último paradeiro.
Mas agora, com o maravilhoso advento do celular, é só mandar um WhatsApp para algumas clientes e descobre na hora, onde anda a tal revista.
Tia Lila não é lá muito, digamos, amiga da gramática nem da pontuação e vai digitando mais ou menos como fala, criando seu dialeto próprio e se entendendo perfeitamente com sua rede de clientes
Tia Lila conversando com a clientela, digitando no WhatsApp:  - oi mule tudo bom a revista da avon ta com tu?
- ta não mandei pa lurdinha de amancio onte
- ta bom vou falar com ela. tas boa? lucinda melhououo oxi
- melouhou melhrou melhorou?
- misericoorda as vez da umas coisa assim num e?
- a gente escreb um negofio aparece outo. xau mule depois nos se fala mehlor
- apois e eu me inrolo também de vez em quando. sim lucinda ta milhozinha ja ta comendo normal xau
E assim vai Tia Lila, vendendo seus produtos e fazendo mais clientes graças ao WhatsApp. Em pouco mais de dois meses, Tia Lila descobriu que tinha 256 contatos no celular e as vendas aumentando. Uma das frases mais faladas na região começou a ser: qualquer coisa manda um zapzap.
Agora dava para rastrear as revistinhas com maior facilidade e a comunicação zapzapeada facilitava o entendimento entre Tia Lila e suas clientes. Em pouco tempo de zap, Tia Lila, não muito boa na gramática, foi ficando cada vez mais rápida em digitação. No zapzap ela conversa, marca preços, descreve produtos, dá consultoria em maquiagem, faz promoções, o escambau, uma gestora de marketing comercial entre sítio e cidade.
Tia Lila gerindo os negócios: - oi zu tas boa mulher? sevinha me diss q tu quer a tapaue redonda de 3 deposito rosa ne?
- oi lila javisse sevinha num perdddd tempo kkkkkk apois mule e a rosa mermo tem?
- tem sim vo dexar pra tu p dia 20 ta bom?
- pera – passa um tempinho - ta bom p dia 20
A fiel clientela continua crescendo e sendo fidelizada cada vez mais.
- conca minina tu num quer nada esse mês não?
- ah lila, tu nem adivinha viss cisso tomou uma cachaça domingo q chego daquele jeito q tu sabe
- eita de novo? mas num quebro nada em casa não dessa veiz?
- avemaria graçadeis não mas to sem fala direito cum ele
tu sabe ne? depois nios conversa mais os menino tao chegando da escola
- ta mule fica cum deus Deus
Os contatos continuam criando vínculos e ela dando consultorias.
- nevinha mule num entendi se os baton e tudo da merma cor
- oi lila ne não os 2 vermelo, um e sonho metalizado eo oto carmim cigano. ozoto e rosa bem clarinho. entendesse?
- ta certo oia se for pratu fica melhr o sonho acaju combina mais comteu tom de pele visse
- é não mule é pa da de presente as menina de zildinha e fulorencia”
- ta certo então ta bom
- mule eu nem ti conto visse se lembra q eu te disse semana passada de juareiz da repartiçao?
- eita lembro q foi?
- mas essa num posso dizer nem por zap tu vai fica passada feito eu fiquei
- misera sera o q eu to pensando?
- kkkkk mais do que tu tas pensando so q essa so pessoamente viss
- kkkkk oxi amanha passo ai
- vem mermo inte tras a revista da avon
Então, Tia Lila descobre que pode formar um grupo no zap e começa a viajar nas ideias. Falar com um monte de cliente ao mesmo tempo, indicar os produtos em promoção pra mais pessoas, divulgar as novidades e muito, muito mais. Esse zap é uma coisa do outro mundo.
Qual nome colocar no grupo? Quem pode participar? Mistura todo mundo? Enfim, ela cria um grupo e depois de muito pensar, estrategicamente, nomeia de “Tia Lila Zap Cosméticos e Variedades”. Inclui no grupo todos os parentes, todas a clientes atuais e todas as prováveis clientes. Resultado, mais de trezentas pessoas.
Tia Lila no grupo, dando uma caprichada no português, claro, agora ela falará para uma multidão: – minha gente, de a partir de hoje nos agora podemos conversa mehlo ao mesmo tempo real. Gedinha minha filha, me ajudou a fazer esse grupo de Tia Lila Zap Cosmeticos e Variedades e agora posso oferecer a vocs os mermos serviços de sempre so que a gente pode resolver as coisas tudo na hora. Qualque duvida e so dizer. Estou a sua disposição”
Pronto, um up nos negócios, com a devida repaginada e tecnologia.
Tia Lila no dia seguinte ao lançamento do grupo Tia Lila Zap Cosméticos e Variedades:
– bom dia minha gente, que as bença do senhor ilumine o dia de todo mundo – ela deve ter pensado “arrasei logo de manhã”
As pessoas do grupo começaram a responder e dar felicitações. Só de “bom dia” foi mais de oitenta.
- Vige nossa senhora - admirou-se Tia Lila – Esse povo todo respondendo bom dia. Tratou logo de pedir auxilio à filha - Gedinha minina vem cá, como apaga esse monte de bom dia?
Mai tarde ela resolveu digitar: – alo delinha tas por ai?
Pra que tia Lila perguntou uma coisa dessas num grupo do zap, com mais de trezentas pessoas?
E começaram a responder dizendo que não era Delinha, que nunca mais tinham ouvido falar de Delinha, se Delinha tava morando com Inácio ainda, que tinham visto Delinha saindo da padaria ontem, que Delinha não era mais a mesma... e por aí vai. Só o assunto Delinha, tomou mais de meia hora, com mais de cinquenta mensagens.
O socorro de Gedinha, a filha, foi necessário novamente. Pra começar, Gedinha como a adolescente poderosa nos assuntos feicebuqueanos e zapísticos da família, tirou logo proveito da situação e mandou de lá.
– Mainha, é o seguinte, a senhora fica aí fazendo seus comércio pelo whats sem saber usar direito e termina sobrando pra mim, pra lhe ensinar e resolver as bronca. Vamo acertar uma coisa, eu lhe ensino direitinho a senhora usar e a senhora tira pra mim aquele perfume que a bruaca da Tayane pediu pra ela. Certo?
- Como é Maria Genedina? Tu tá querendo se aproveitar de tua mãe, assim no descaramento? – pensou mais um pouco e cedeu – Tá bom venha logo me dar umas aula agora, que o negócio tá ficando complicado. Espie, esse povo parece que não tem o que fazer, só porque um dá boa tarde, pra que essa tuia de gente respondendo? E ainda por cima ficam conversando de tudo que é assunto.
E lá se foi Gedinha sentar ao lado da mãe, explicando como deletar, silenciar, apagar, copiar, colar, enfim, prestar o seu serviço de consultora do “whats” (pra ela quem chama zap é a pobreza). Claro, visando principalmente o perfume que iria ganhar como pagamento.
Enquanto isso, no zap de Tia Lila os negócios iam de vento em popa, ela fazia uma promoção de um depósito de plástico encalhado, umas bijuterias meio cansadas, uns jogos americanos defasados, era só tirar a foto dos produtos, colocar no zap e esperar. Não dava dez minutos, alguém perguntava o estado das coisas, pedia um desconto e se vendia toda mercadoria que aparecia. Ela só não vendia os cosméticos que estavam com a data de vencimento expirada, afinal, Tia Lila era uma mulher de caráter e prezava pela manutenção da confiança da clientela.
Mas, ao mesmo tempo que as vendas melhoravam e o grupo crescia, as pessoas começaram a usar o Zap Cosméticos e Variedades para outras finalidades nem tanto comerciais, por assim dizer. Era um tal de “vocês já ouviram falar de...”, ou então “ minha gente, não quero fazer fofoca não viu, mas me contaram que...”, ou ainda “é verdade que alguém da rua quinze ta dando em cima do namorado de...”
As novidades mais quentes da cidade e dos sítios vizinhos começaram a ganhar comentários até mais ácidos. Às vezes, no meio das vendas e consultorias de beleza se misturavam opiniões sobre a roupa de fulano, ou sobre alguém estar querendo ser melhor que os outros por ter comprado muita coisa de uma vez, ou pra quem seria aquela camisa masculina chique que uma comadre ali comprou, se ela nem namorado tinha. Os familiares participantes do grupo se queixavam dos que não eram parentes e viviam se metendo onde não eram chamados, um pessoal não sei de onde ficava prendendo as revistas sem deixar o povo ver, uma cliente disse que tudo que comprava, tinha outra “despeitada” que comprava sempre igual, só pra “impricá com ela”. Um dia, alguém mandou a outra calar a boca, pois só “saía merda”, aí a coisa ficou feia. Tia Lila, sempre entrava no meio das confusões como apaziguadora e conciliadora das diferentes opiniões, mas as rixas e confusões começaram a atrapalhar as vendas. Os parentes começaram a ir na casa da Tia Lila pra reclamar de alguma fulana que estava se metendo demais onde não era chamada, uma prima foi falar pessoalmente com Lila sobre uma lorota que ouviu quando passou na frente da banca do bicho e aquele assunto só quem sabia era a outra prima do sítio. Tia Lila recebeu uma reclamação no trabalho, pela primeira vez na vida, por conta de os negócios estarem atrapalhando o atendimento ao contribuinte.
Estava na hora de repensar o Zap Cosméticos e Variedades, antes que piorassem as coisas. Em três dias saíram mais de quarenta pessoas do grupo e as vendas começaram a cair. Então Tia Lila tinha que fazer alguma coisa para mudar a situação. Dias depois, as saídas já eram mais de noventa, ou seja, prejuízo na certa.
Foi quando então, Gedinha, a filha consultora para assuntos de “whats” (por que quem fala zap é pobreza), teve uma ideia e falou pra mãe.
– Por que a senhora não faz um áudio explicando as regras do grupo?
Foi aí que Tia Lila descobriu o áudio do WhatsApp. Até então, toda o negócio sempre tinha se resolvido na base da digitação.
– Ah, minha nossa Senhora, mas Gedinha por que tu num me disse isso antes? Marminina, se tu tivesse me dito, já tinha resolvido essas bronca faz tempo.
- Oxi mãe, marrenada, a senhora nunca me perguntou. – responde a adolescente abusada.
Tome aula pra ensinar a gravar áudio. Aprende, testa, refaz, pronto.
Tia Lila se tranca no quarto, se senta na beira da cama, de frente pro espelho da cômoda, dá um spray de perfume no pescoço, pega o celular e começa a gravar a mensagem para o grupo. E capricha o mais que pode, na primeira gravação do grupo.
- Minha gente, primeiramente boa tarde, eu tô aqui hoje pra falar com vocês porque eu notei que tem gente saindo do grupo, que deve tá aborrecida com esses acontecimento chato que tem ocorrido. É muita conversinha sem jeito, muita fofoca sem precisão. Ói, meus parente ta reclamando, o pessoal do trabalho me reclamou, umas amiga minhas clientes antiga também reclamou, tá dum jeito muito ruim. Tô gravando essa palavra pra informar a todos os participante que esse grupo é só mesmo pra gente fazer os pedidos das compras e conversar somente sobre o comércio de venda das minhas mercadorias. Tá certo?
Agora, pra o pessoal que já deixaram o grupo quero falar uma coisa...Olhe, vocês que saíram do grupo, quero primeiramente me desculpar e dizer que a partir de agora...
Então Tia Lila falou mais uns seis minutos, num discurso destinado às pessoas que saíram do grupo, se desculpando pelos desentendimentos e interpretações erradas das conversas e, principalmente, pedindo para elas voltarem a participar do Zap Cosméticos e Variedades. Isso mesmo, ela gravou um áudio no WhatsApp, destinado às pessoas que saíram do grupo, imaginando que, essas pessoas iriam ouvir sua gravação.

Tia Lila continua trabalhando na prefeitura da cidade, vendendo suas coisinhas, espalhando e recolhendo as revistinhas de produtos, agora tem uma lojinha na garagem da casa com o nome ZAP COSMÉTICOS E VARIEDADES, pintado na parede da frente. E até hoje ainda me pergunto, se as clientes que saíram do grupo ouviram o áudio gravado para elas.

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