REFLEXSONS


Andando no parque, ao som de Gil

Há umas duas semanas atrás, estava eu andando no parque da  minha cidade (pois é, temos um parque bem legal, com pista de Cooper de 1 km, com um bocado de curvas, entre muitos eucaliptos), conhecido como Parque dos Eucaliptos. Eita, já to eu desviando a conversa, mas voltemos. Então, naquele fim de tarde que a preguiça me abandonou, tive coragem de me propor a andar 3 km no parque (ufa!). Estava eu começando o segundo km, e comecei a ouvir Gilberto Gil pelo headphone do celular (claro que ouço música enquanto ando, ajuda a aguentar o esforço) e começou a tocar a música “Superhomem – a canção”, naquele lindo arranjo original da primeira versão. Foi quando percebi na minha frente um senhor magrinho de cabeleira cheia e totalmente branca, bermuda um pouco abaixo dos joelhos, camisa de malha branca, perfeitamente ensacada, cinto de couro  e tênis perfeitos para andar, tipo aqueles escolhidos pela filha mais velha e presenteados no dia dos pais. Pois bem, aos primeiros versos da dita música de Gil, comecei a acompanhar o senhor de cabelos brancos, dava para ultrapassá-lo, mas decidi ficar por ali, observando-o a certa distância. Apesar de magrinho e corpo frágil, tinha passadas firmes e constantes, sem mudar o ritmo. E a música rolava “um dia, vivi a ilusão de que ser homem bastaria” ... “minha porção mulher que até então se resguardara”... comecei a imaginar aquele senhor, já idoso, há uns 30 anos atrás, como teria sido ? O que estaria pensando agora, por baixo daqueles cabelos tão brancos? Pensaria na morte ? Na saúde ? Teria boas lembranças ? Ou más ? Sua esposa ainda vivia ? Seria ele um gay ? E Gil continuava cantando “quem sabe, o superhomem venha nos restituir a glória, mudando como um deus o curso da historia ...” Ou simplesmente o cara não estaria nem aí pra nada disso ? Teria  tomado um porre na noite anterior e estava ali somente curando a ressaca? Sei lá, ultrapassei o senhor das cãs e segui em frente, curtindo Gil.  Mas, duas músicas depois, ainda escutando Gil, começou a tocar “Flora” com aquele início despretensioso, que vai crescendo aos poucos e entra a voz “imagino-te já idosa, frondosa toda a folhagem...” Foi quando então começa a descortinar-se em minha frente, a imagem marcante da tarde, perfeita para combinar com aquele fundo musical. Ou então, perfeita para descombinar totalmente. Pense um pouco comigo e decida por si mesmo. Vejo surgir diante de mim, ao mesmo tempo em que Gil começa “ imagino-te jaqueira, postada a beira da estrada, velha, forte, farta, bela, senhora, ô, ô, ô, ô, ô...” (imagine a cena em câmera lenta),  parada, em pé, com as mãos na cintura, de perfil pra mim, uma imensa senhora, imagino, de uns 35 a 40 anos de idade. Eu disse imensa? Aumente um pouco mais, imensas eram apenas as pernas dela. A bunda, misericórdia, inominável, sem uma classificação justa com vãs palavras, apenas exclamações poderiam definir aquilo. Vestida com uma malha colada na pele, eu acho que aquilo era uma própria pele, pois não imagino como aquela roupa conseguiria ser vestida, de uma cor marrom clara. Brilhante (???) (pausa para respiração). Agora vem o busto. Ou melhor, vem não, um busto daqueles é melhor que vá. Vá e não volte tão cedo. Moço, moça, olhe, pense num par de seios avantajados... isso pra descrever com delicadeza. Assim como não tenho palavras pra bunda, pros seios quase não tenho pensamentos. Aquilo merecia pelo menos uma expressão tipo – eita lapa de peito da moléstia. E isso tudo vestido com uma blusa de malha verde escuro, bem ligada, com um audacioso decote na frente, deixando expor um vale, digamos um precipício entre os seios, que balançavam, enquanto a dona (dos seios) tentava dar um jeito no esvoaçante cabelo, querendo prende-lo com um elástico mínimo entre os enormes dedos. Aquela visão, se deslumbrando diante de mim, ao som de Gil, imaginei logo um pé de jaca com dois frutos imensos presos paralelos no tronco, me esperando naquela curva da pista. Confesso, desisti de andar, parei imediatamente, sentei no banco mais próximo e fiquei escutando a maravilhosa música de Gil (Flora). Enquanto decidia se iria em frente ou voltava.
Terminou a música, e eu pasmo, decidi achar graça com a minha interpretação da cena ao ocaso no parque.
De repente, percebi que a jaqueira não estava mais ali e saí andando devagar. Surpresa! Na saída do parque lá estava ela, sentada num banco, como se esperasse alguém, cansada, suada, ofegante, mas com uma cara ótima e ao passar por ela, sorriu pra mim e me desejou boa tarde.
Boa tarde – respondi - e saí cansado.

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